Waldo Motta: Memória de uma Guerra de Nervos

Toque para Ogum

 

Tudo que um guerreiro precisa

quando vai à luta

é depor armas e flores

aos pés do inimigo

cair matando de amores

por todos os filhos da puta.

 

Embora o meu país não esteja em guerra com nenhum outro, eu vivo em guerra constante, mais na defesa que no ataque. Falo da luta pela sobrevivência, tão acirrada para um homossexual, num país que é campeão de assassinatos de gays.

Portanto, eu tenho uma memória de guerra, pois vivo em constante estado de guerra em meu país. Eu vivo em estado de sítio, porque sou um cidadão sitiado, discriminado, perseguido. Por ser ostensivamente homossexual. E ainda por cima, tenho um discurso homossexual, em que dignifico a homossexualidade e desfraldo a bandeira do orgulho gay, com fervor religioso, através de minha poesia homoerótica e mística.

Entre outros fatores desta guerra, estão o machismo de grande parte de brasileiros, o fanatismo religioso de católicos e evangélicos, um alto índice de analfabetismo, a educação precária, a pobreza generalizada, a hipocrisia dos meios de comunicação, a estupidez e a incompetência dos políticos e do governo.

É um guerra silenciosa, invisível, sob a forma de discriminação, boicote, indiferença, apagamento, banimento. Então, senhores e senhoras, imaginem o que é ser um homossexual famoso e temido, amado por alguns e detestado por muitos. Alusões a essa guerra são encontráveis em vários meus poemas.

Luto com palavras, e tenho esperança de que esta não é uma luta vã. Acredito que a palavra seja a mais poderosa de todas as armas.

“Toque para Ogum” é um poema guerreiro contra a guerra, para acabar com a guerra. Ogum é o nome de um deus da guerra na mitologia africana. Mas Ogum também é um deus da arte, da cultura, da civilização.

Assim sendo, eu acredito que, como na homeopatia, nós podemos combater e talvez evitar a guerra com poesia, arte e cultura.

 

Vitória, Espírito Santo, Brasil

Waldo Motta

Waldo Motta (nome artístico de Edivaldo Motta, São Mateus, Espírito Santo, 27 de outubro de 1959) é poeta, místico e agitador cultural brasileiro, comumente ligado à geração marginal da década de 1980 e, mais especialmente, à de 1990, e apontado como uma das mais representativas vozes da poesia brasileira no início do século XXI, ao lado de Fabrício Carpinejar, Angélica Freitas, Micheliny Verunschk, Frederico Barbosa, Cláudia Roquette-Pinto e Cuti.

 

Obra

  • Os anjos proscritos e outros poemas (parceria com Wilbett R. Oliveira). São Mateus: Edição dos Autores, 1980.
  • O signo na pele. São Mateus: Centro de Cultura Negra do Vale do Cricaré, 1981.
  • As peripécias do coração. São Mateus: Centro de Cultura Negra do Vale do Cricaré, 1981.
  • Obras de arteiro. São Mateus: Edição do Autor, 1983.
  • De saco cheio. São Mateus: Edição do Autor, 1983.
  • Salário da loucura. São Mateus; Vitória: Edição do Autor, 1984.
  • Eis o homem. Vitória: Fundação Ceciliano Abel de Almeida / Universidade Federal do Espírito Santo, 1987. Coletânea.
  • Poiezen. Vitória; São Paulo: Universidade Federal do Espírito Santo / Massao Ohno, 1990.
  • Bundo e outros poemas. Organização: Iumna Maria Simon e Berta Waldman. Campinas: Editora da Unicamp, 1996. Coletânea reunindo poemas dos livros Waw e Bundo.
  • Transpaixão. Vitória: Edições Kabungo, 1999. Coletânea.
  • Cidade cidadã. A cor da esperança. Organização: Adilson Vilaça. Vitória: Secretaria Municipal de Cidadania e Segurança Pública, 1998, v. 4. Publicação em homenagem ao Dia Nacional da Consciência Negra.
  • Recanto: poema das 7 letras. Vitória: Imã, 2002.
  • Transpaixão. 2ª edição. Vitória: Editora da Universidade Federal do Espírito Santo, 2009.
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